Professora muda vida de alunos na periferia com funk e rap

by - 13:21:00

 Tempo de leitura 2:47
Quando falamos sobre fazer o que ama, também questionamos o modelo vigente, seja de trabalho ou de ensino, e essa professora tem feito isso de forma bastante significativa.
Em vez de desistir de seus alunos na periferia de São Paulo, a professora de história Ane Sarinara (27) resolveu trazer gostos pessoais do mundo destes jovens para a sala de aula e assim envolvê-los.
Para isso, passou a adotar o funk e o rap como ferramenta de ensino.
“A escola está completamente fora da realidade deles, e a educação, sem significado, não tem sentido nenhum. É aquela ideia: você finge que explica, eles fingem que entendem. São cidadãos que não gritam, que não berram, omissos, obedientes. Costumo dizer que não estudei para domesticar aluno. Querem que eu faça isso, mas eu não consigo”, conta ela à BBC Brasil.
“Os alunos gostam disso, é o que eles escutam e é a linguagem que eles sabem”, diz após oito anos lecionando.
Quando questionada sobre como nasceu a ideia, conta que começou com um estudante muito problemático, mas muito bom em cantar funk.
“Outros professores tratavam isso como indisciplina. Só que eu sou da periferia, escuto funk desde que me conheço por gente”, lembra. “Sugeri que ele escrevesse um funk sobre a matéria – foi a forma que encontrei para ele fazer parte da aula.”
1619563
Ao final da apresentação do trabalho percebeu o resultado positivo sobre todos e então viu uma oportunidade aí. Com o tempo, levou a ideia além da música. Usou estratégias de ensino como criar um tribunal que dividia a sala entre polícia e tráfico.
Porém, nem tudo são flores e nem todos gostam de mudanças. Alguns docentes não aprovaram. “Eles diziam: ‘alguns pais estão reclamando, se eles forem na Diretoria de Ensino você vai ter que se retirar da escola’. E eu respondia: ‘não vou mudar, não estou fazendo nada de errado’.”
Que bom que ela não desistiu. Hoje a ideia estrapolou a escola e é um método utilizado na Fundação Casa, instituição que abriga menores de idade infratores em São Paulo.
“Quando entro na Fundação Casa, lembro das grades da minha escola. É igual. Não vejo diferença. A escola é uma prisão, a única diferença é que ela não tem seguranças. O resto é tudo igual. A mesma rotina, as mesmas grades, aquela lousa lá na frente, professor estressado”, relembra.
1619565
A própria Ane é nascida e criada na periferia de São Paulo e sabe bem como é a vida por lá.
“A escola era uma prisão, é uma grande jaula. Você joga as pessoas lá, transforma todas elas em máquinas de obedecer sem questionar, mostra um mundo fora da realidade delas. Era como eu me sentia dentro da escola: presa”, desabafa. “Pensava: como eu gostaria que tivessem me dado essa aula? Foi por isso que comecei a tentar essas coisas diferentes.”
“As pessoas costumam estudar e trabalhar para poder sair daqui. Mas eu não penso assim. Não tenho que sair desse lugar, eu quero transformar esse lugar”, finaliza.
1619564
Descubra o que você ama
Fonte e fotos: Folha de S. Paulo

You May Also Like

0 comentários